martedì, 03 novembre 2009

Febre nº2

E o pós-feriado, feito mão espalmada atingindo o rosto em fração de segundos, enerva o espírito e escalda o corpo com o vapor dos dias sem nuvens nem ventos. E as ziquiziras repentinas resultantes do contraste dos montes de comida devorados pela massa e a falta de prepararo para resistir o aquecimento global, implacável entre as bruscas variações. Cigarras chiando ao máximo e o cheiro de gordura queimada misturada ao inconfundível odor dos escapamentos dos carros e bocas feito escapamentos de carros entre os passos malemolentes, as tortas ve desfocadas silhuetas das pessoas. Cambaleante é o ar que se respira e os ruídos causados pelas coisas mais irritantes da vida (a exemplo, várias crianças reclamando simultaneamente). Sinuosos são os pensamentos nas horas erradas e todo tipo de consequência de atos não devidamente calculados. O nariz, revolto e mareado, não sabe se é melhor se comportar como nos habituais resfriados ou como o ímã de todos os odores exagerados. As únicas coisas devidamente registradas pelas pupilas e retina desnorteadas são o chorume que escorre do lixo recostado no poste e as formigas tomando para si os aposentos da casa, uma vez explusas do fundo de suas microcavernas pelo calor infernal. O melhor dos travesseiros e a brisa artificial de um ventilador ainda não trazem o alívio necessário, mas fazem bem para reduzir o desconforto os maus pensamentos. Há que se repensar a rotina.

Sonic Youth - Sunday
 


Por filipetorres - 23:05

martedì, 13 ottobre 2009

A outra janela (Monólogo 2)

Do lado de fora, mais janelas espelhadas feito mil-olhos a observar o que há dentro de casa. Vai ver, por isso eu não gosto da cortina escancarada, avassalando os móveis e os hábitos dos que aqui habitam. Não que haja algo de imoral ou de valioso a ser escondido, mas me atormenta o fato de haver a possibilidade de a curiosidade de alguém atravessar um dos mil-olhos defronte a casa e atingir as particularidades daqui de dentro. Porque, mesmo sem a dita curiosidade, é inevitável que, por um mísero instante, o olhar daqui de dentro atravesse algum dos mil-olhos e veja a desagradável intimidade de outrem. Fechando a janela do escritório, outro dia, observei de relance que um vizinho via um filme pornográfico na sala de estar - coisa que seria impossível dentro de minha casa. Não que não ache natural o direito de alguém ver (e ser) o que quiser dentro de sua própria intimidade, mas a imposição de convivência social - este ente sobrenatural, responsável pelo surgimento dos monstros de concreto de mil-olhos, de uma maneira sádica, aproxima a "visão de dentro" ao exterior, avassalando os abalroados monstros de concreto e acertando as outras visões de dentro; e ainda impõe que não haja interferência alheia nas intimidades, paradoxalmente. Enquanto busco uma cura para a mania de fechar cortinas, basculantes e venezianas, a cada dia mais um demônio de mil-olhos cresce nas ruas - até o dia em que teremos de atravessar fisicamente as intimidades para acessar o logradouro público.

The xx - Night Time


Por filipetorres - 10:00

mercoledì, 16 settembre 2009

Distâncias

 

Andar na hora cheia sobre grandes avenidas é atravessar um formigueiro em debandada. Todos os rostos anônimos e faces desfocadas, destorcidas pela indiferença e pela música que estoura os tímpanos. Os altos edifícios de concreto e as armações de metal onde se escoram operários e o medo constante de tudo aquilo desabar de uma vez por sobre as cabeças dos que passam. E num curto segundo, um rosto como miragem, algo que ficou num passado já distante – histórias amargas que ficam em mentes que persistem em querer ir pra frente. Mas a memória traiçoeira persiste em abrir a ferida com agulha quente. Uma esquina e um sinal fechado a mais pra esquecer o que passou. Os passos apressados, dos que também querem esquecer coisas recentes. E tantos minutos ainda para se chegar em casa: conduções abarrotadas cheia de rostos sonolentos, esperas intermináveis, um guarda-chuva sempre a disposição para o pior (e muitas vezes, a necessidade de se comprar um par de galochas – nunca se sabe...). Algumas distrações ao longo dos caminhos, mas sempre no meio da rotina há o soco da lembrança e o tempo que se passa para apagar algo ou alguém da cabeça.

Thom Yorke - The Eraser



Por filipetorres - 16:00



























Creative Commons License

BlogBlogs